sábado, 2 de fevereiro de 2013

Viagem no tempo e pra Índia

Oi pessoal.

Umas aventurinhas - nem tão de entressafra assim, já que eu estava trabalhando - que vivi na Índia em 2007. Totalmente descontextualizado, eu sei, mas é que ontem encontrei este material nuns e-mails antigos... E adorei relembrar as engraçadisses da Índia. Outro planeta...

26/06/07
Os outdoors pela cidade são extremamente engraçados! Os mesmos produtos, em outro contexto cultural. Assim fica fácil ver como essas propagandas são ridículas! - em qualquer lugar do mundo.
São hilárias aquelas com homens, fazendo cara de machão. Mais baixinhos, gordinhos e bigodudos, por aqui, e com um olhar mais brabo. Não fazem o tipo David Beckham que impera no ocidente.


aqui nem se preocuparam em usar fotos diferentes para dois episódios...

como disse meu amigo Gil Tokio, Protfolios é que nem portfolios, só que muito mais pró

a obsessão pela auvura


Outro dia, fui numa loja de tecidos com outros voluntários. Do lado de fora, um tapete onde todos deixam seus sapatos anted de entrar. Sobre o piso de toda a loja, um colchão gigante branco: somos atendidos sentados no chão. Muitas vezes eu e os outros voluntários nos empolgávamos e ficávamos em pé, pegando os panos diretamente da prateleira. Apenas homens como antendentes, que nos pediam sem parar: Please, sit down, Madam!, em seu inglês engraçado. Havia um atendente por pessoa, e mais uns dez assistindo aquela festa.
Pois bem. Eis que surge um rapaz bem vestido, e que falava inglês bem melhor que os outros. Devia ter alguma posição de destaque, na loja. Usava uma camisa “esporte fino” rosa claro e calça jeans. Eu não cheguei a sentir, mas ele parecia perfumado. Era obviamente um partidão. Dava pra sentir a sua áurea de rapaz cobiçado. Eu me divertia percebendo que seu magnetismo dificilmente encontraria imã entre as mulheres “européias”. Eu acho que muitas coisas não são determinadas por questões culturais, mas é muito interessante observar quando elas operam.
Os atendentes perguntaram de onde eu era. Como eu só tenha encontrado, até agora, um indiano que disse saber onde é o Brasil, explico: fica perto do U.S.A. Um menino me intimou: show me your dollar, madam. “Mas eu não tenho meu dólar aqui pra te mostrar!”. “Show me your dollar”, repetia, mexendo a cabeça a la indiana – estilo do qual eu estou ficando adepta. Esse estilo consiste em fazer um 8 horizontal com o nariz, numa mistura de sim, não, e “estou te ouvindo”. Ele insistiu por muito tempo e então eu distribui balas de hortelã – vindas da Holanda! – pra mudar de assunto.

As espanholas pechinchavam e tanto demoramos que eles nos deram suco de maça em caixinha. O povo aqui tem mania de oferecer “cold drinks”. Depois de horas no telefone da vendinha, sempre recebo um refrigerante em troca das centenas de rúpias gastas em ligações. Nas obras, então... quando resolvi recusar um refrigerante, o rapaz exclamou: mas é de manga! De fato. Pensei que era Fanta mas não era. Deliciosa bebida viscosa e não gasosa da fruta da estação (que, infelizmente, está nos últimos dias).



Abdu e sua vendinha na frente do campus da Fundación



28/06/07
Hoje vi um mapa-mundi em uma agência de viagens e tive uma sensação nova: de repente, o mundo era menor. O Japão já não era o outro lado do mundo!




À noite, fomos à aula de Kuchipudi, dança típica do estado onde estou, Andhra Pradesh. Foi muito engraçado. As duas professoras normalmente ficam sentadas a aula toda, indicando com as mãos os novos passos, e assim fazendo as necessárias correções. Elas batem estridentemente um bastão de madeira no chão de pedra pra marcar o tempo das canções. Só o que falam é “Bend” (para que dobremos sempre ainda mais os joelhos), “Gap” (para que corrijamos a distância entre os calcanhares), “Practice” (Pratique) e “Sit” (Sente-se). As meninas insistem pra que elas se levantem e demonstrem os novos passos. Mas nada. Uma recusa-se terminantemente, a outra ascede ocasionalmente. Falam bastante entre si e eu suspeito que às vezes da gente, pois mesmo falando em telugo colocam a mão na frente da boca e falam baixo, em meio a risinhos. Mas o que elas mais gostam é de mandar e receber mensagens pelo celular. O tempo todo.
Pois não é que hoje foi um senhor munido de uma câmera fotográfica, e toda a dinâmica do lugar mudou!? Enquanto as branquelas aqui ficavam imóveis em poses desconfortáveis – como muito flexionadas, ou em um pé só – as professoras fingiam que nos corrigiam, sorrindo para a câmera. É o cúmulo!

Estamos sendo convidadas para participar de um festival de dança para o qual virão “doutores de toda a Índia”. Menos glamuroso será nosso papel: de homens galanteadores. Isso eu e a Judit, que somos mais altas. A Blanca ainda está esperando um convite.



Mirando a fama diante de doutores de toda Índia!



Depois da aula, paramos em uma barraquinha pra Blanca comprar enfeites de cabelo, feitos de miúdas flores brancas. Sentada sobre a singela mesinha, estava uma senhora escura e magrinha. Tinha as solas dos pés unidas, demonstrando grande flexibilidade. Achei muito bonito o processo da venda: a senhora mediu o comprimento do cordão de flores com seu antebraço, colocou-o em um pedaço quadrado de jornal e amarrou tudo, habilmente, com barbante. Cinco rúpias (quarenta centavos de real). E com a moeda na mão, nos sorriu sem dentes mas com uma beleza e um brilho tal que fácil se notava que naquele corpo residia uma alma.




Um pouquinho da vida urbana de Anantapur.



Outra experiência legal foi a de outro dia, quando fomos pegar um rickshaw. Vamos sempre na parte de trás. Dessa vez, já havia uma indiana sentada. Judit e Blanca sentaram-se, e antes que eu pudesse vislumbrar uma fresta para sentar-me, o automóvel pôs-se em movimento. Judit e a indiana me agarraram e assim fui parar meio no banco, meio no colo da indiana. Ela falava comigo em Telugo, sem parar. Finalmente entendi que havia algo de inconveniente na maneira na qual eu estava sentada – não sei se indecente ou desconfortável – porque após um ajuste ela sossegou. Fui com o apoio de um calcanhar, uma mão e meia nádega, segurando tudo com o abdomem. Que montanha russa! Após cada mega buraco, eu e ela caíamos na risada – eu em Português e ela em Telugo, mas dessa vez não fazia diferença.



Judit nas costas de um rickshaw.


Índia!



29/06/07
Hoje eu, a Judit e o Pedro fomos visitar umas obras bem distantes da Fundación. Estou ensinando Português pra Judit, e no carro fomos praticando. A primeira lição está sendo com a música “A Novidade”, do Gilberto Gil. Ríamos muito: ‘rabo’, na Espanha, é um termo usado para designar os aspectos fálicos da existência. De maneira que expressões como “grande rabo de baleia” e “desejar seu rabo pra ceia” não passavam desapercebidas.
A Judit ía anotando a pronúncia das palavras entre parênteses, e isso foi muito interessante, para mim. Por exemplo, rabo = habu. Acho que começo a ver o Português com outros olhos, ou melhor, com outras lentes. Eu tentava manter a seriedade para não desencorajá-la, mas algumas situações me faziam rir um bocado.

Ela:
- Outros a dedjedjar seu habu pra ceia...
Eu:
- Desejar.
- Dedjedjar.
- Dezzzzejar.
- Ded jjjjjedjar.
- ZZZ. ZZZZZ. Como a abelha: ZZZZ.
- ZZZZ. ZZZZ.
- Isso! Desejar!
- Dez-djedjar.
- Isso, tá melhorando.

E
- Biraba um pesadilo tao medoño...
- Virava. Vvvvviravvva.
Ela concordava:
-Biraba.
- É, tá bom.

Tudo correu bem, nas obras. Em uma delas, nos foi servido almoço na cantina. Uma mesa posta para nós, com menu especial, tudo no maior capricho. Ai me dei conta de nossa privilegiada posição.

Muito bem. Na volta, paramos em um templo hindu cravado em uma montanha de pedra. Após recomendação gestual do Samu, motorista, tiramos os sapatos e entramos. Gostei da energia do lugar, um espaço aberto conformado por muros brancos, pedras e árvores em variadas e inesperadas combinações. Abracei uma pedra gigante. E fiquei tão feliz que comecei a saltitar! Que alegria!
Estava de saída quando vi um templo verde pequenino, de teto muito baixo. Desci os dois degraus e me juntei à Judit, que tentava ver alguma coisa através do portão que ali havia. Vimos um saquinho de pó amarelo e carimbamos o entre-as-sobrancelhas uma da outra. Ela voltou a olhar pela grade e eu sai saltitante.
Ou melhor: não sai. Ali tive uma das sensações mais fortes da minha vida. Saltitando para subir os degraus, senti uma pancada violentíssima no topo da cabeça (iluminação!?!), que me lançou diretamente ao solo com força muito maior que a da gravidade! O teto baixo! A viga verde! Que dor. Tive plena consciência do meu crânio e de seu recheio, durante a queda. Senti-me como uma bola de ping-pong.
Nisso o Pedro chegou e a Judit virou-se para mim. Riam sem se dar conta da gravidade da situação! Eu cheguei a ficar mesmo preocupada. E chorei! A Judit fazia um carinho dolorido na minha cabeça e falava pra eu me levantar, mas as lágrias escorriam por minhas bochechas.
Quando finalmente levantei, pude rir por entre as lágrimas.
Quem sabe este é um sinal de que os templos indianos irão abrir muito a minha cabeça (de forma menos material, espero)!

mais fotos em: http://www.flickr.com/photos/siqueiramm/sets/72157600431677524/