Quando uma ironia é esperada, ela ainda é irônica?
Acho que sim.
Eu já me havia preparado para a eventualidade de que, após duas semanas de sol fora do comum para o início da primavera, pudesse chover no dia em que eu queria ir à praia.
Mas não foram nem chuvisco nem neblina que me tiraram da cobertura do barco que mansamente ganhava as águas de um mar escuro, mar docemente diluído no branco firmamento.
Eu só não tive um treco ao ver a primeira vilazinha de pescadores (que ainda não eram as Cinqueterre, propriamente ditas) porque Gênova já me havia preparado os olhos.
Outra vez, casinhas espichadas como um adolescente vara-pau, em quentes tons pastéis, em maravilhoso processo de decadência, em gritante avidêz para sair na foto.
Aqui a minha habilidade descritiva começa a falhar e, para entender o quão belo era o conjunto, vocês terão de recorrer às fotos abaixo.
A emanação de beleza já era bastante quando o sol decidiu brilhar.
Aí eu descobri que, com o reflexo das casas no mar, a visão ia de bela para mágica.
"Vai dar praia", pensei.
O leitor deve entender que meu compromisso com o reestabelecimento do meu processo de fotossíntese seguia na ordem do dia.
O barco seguiu. Navegamos rentes a falésias de proporções majestosas.
Neste ínterim, o céu fechou outra vez.
Percebi então que não era o barco que fechava, e sim nós que rumávamos sentido neblina, deixando o clarão para trás.
Chegamos à primeira vila das Cinqueterre e, depois de alguns minutos ali atracados, o sol brilhou outra vez.
Assim continuamos, ganhando as águas, a neblina e as vilas, para, pouco depois, o sol ganhar-nos outra vez.
De forma que, ao chegar na quinta parada, corri para um banheiro público e vesti o biquini. Passei boas horas estirada ao sol, sentindo-me distante de todos os problemas da humanidade, tanto os da minha, quanto os da nossa.
A essas alturas eu já ia desenvolvendo o que vai se configurando como o meu estilo de viajar esta viagem: mais do que o que ver, como ver; e fazer o que me pede o corpo. Ou seja, se eu queria era tomar sol, não importa de era o inédito litoral da Ligúria; podia ser a praia de Copacabana ou o quintal da minha avó, igualmente.
Pratiquei revezamento de lado até as quatro da tarde, quando decidi praticar turismo - ou melhor, exploração de terras alheias.
Minha idéia era percorrer um trecho da Passeggiata dell´Amore, esplêndida trilha nas montanhas que conecta as Cinco Terras; almoçar Trofie al Pesto, recomendado prato local, em algum pitoresco restaurante; pegar o trem ao pôr-do-sol e voltar tranquilamente para o hotel em La Spezia.
Mas, ao perguntar por informação, descobri que o trecho entre a vila onde estava e a próxima estava fechado, não sei porque. Além disso, se leva três horas para percorrer cada etapa, mais tempo do que eu gostaria de dispor, dada a intensidade do sol e o avançado da minha fome.
Toca pegar um trem para ir à próxima vila. Na caminhada entre a praia e a estação vi que havia muito mais gente circulando do que quando eu havia chegado. Um domingo que começou chuvoso mas se revelou ensolarado: todo mundo decidiu sair da toca.
A plataforma estava lotada.
Chegando na próxima vila, havia gente por todos os lados, e o pior: os restaurantes estavam fechados! Era tarde demais para almoçar, e cedo demais para jantar (nos é tão particular o conceito de almojanta de Domingo?).
Comi uma foccacia, sentada a uma mesinha na calçada de um bar, cuidando para não ser levada pela enxurrada de turistas que seguia baixando rumo ao mar.
Uma graça a vilazinha mas, dadas as condições, percebi que a melhor experiência que eu poderia ter das Cinco Terras eu já havia tido, especialmente ao havê-las visto do mar.
Resolvi pegar outro trem e ir logo embora para casa.
O trem atrasou e, com isso, juntaram-se gerações de usuários seus.
Vendo a multidão que se aglomerava na plataforma, e, temendo que dita sorte pudesse me acompanhar por minhas italianas aventuras de entressafra, decidi que o mais prudente seria encaminhar uma oração para o Santo Padroeiro dos Viajantes.
Mas quem seria ele!?
Já ensaiava pedir esclarecimento ao amigo leitor, quando me veio a luz.
Quem gosta de Gil e Jorge sabe.
Meu Glorioso...
São Cristovão!
Padroeiro dos viajantes ou Colombo, eu já não me sentia desamparada!
"Não nos deixeis cair em aglomeração
Mas livrai-me das hordas
Amém."
Bela, nublada.
Mágica, ensolarada.
Observem o tamanho do barquinho no mar.
As hordas (das quais, não me esquivo, eu era parte).


























