sexta-feira, 29 de abril de 2011

Mas Livrai-nos das Hordas!

Hoje não havia vergonha em representar o estereótipo da turista, até porque eu me sentia mais uma Desbravadora de Mundos Alheios que qualquer outra coisa.Chapeuzinho Indiana Jones na cabeça e mochila nas costas, Cinqueterre, aqui vamos nós!

Quando uma ironia é esperada, ela ainda é irônica?
Acho que sim.
Eu já me havia preparado para a eventualidade de que, após duas semanas de sol fora do comum para o início da primavera, pudesse chover no dia em que eu queria ir à praia.
Mas não foram nem chuvisco nem neblina que me tiraram da cobertura do barco que mansamente ganhava as águas de um mar escuro, mar docemente diluído no branco firmamento.

Eu só não tive um treco ao ver a primeira vilazinha de pescadores (que ainda não eram as Cinqueterre, propriamente ditas) porque Gênova já me havia preparado os olhos.
Outra vez, casinhas espichadas como um adolescente vara-pau, em quentes tons pastéis, em maravilhoso processo de decadência, em gritante avidêz para sair na foto.
Aqui a minha habilidade descritiva começa a falhar e, para entender o quão belo era o conjunto, vocês terão de recorrer às fotos abaixo.

A emanação de beleza já era bastante quando o sol decidiu brilhar.
Aí eu descobri que, com o reflexo das casas no mar, a visão ia de bela para mágica.

"Vai dar praia", pensei.
O leitor deve entender que meu compromisso com o reestabelecimento do meu processo de fotossíntese seguia na ordem do dia.

O barco seguiu. Navegamos rentes a falésias de proporções majestosas.
Neste ínterim, o céu fechou outra vez.
Percebi então que não era o barco que fechava, e sim nós que rumávamos sentido neblina, deixando o clarão para trás.
Chegamos à primeira vila das Cinqueterre e, depois de alguns minutos ali atracados, o sol brilhou outra vez.
Assim continuamos, ganhando as águas, a neblina e as vilas, para, pouco depois, o sol ganhar-nos outra vez.

De forma que, ao chegar na quinta parada, corri para um banheiro público e vesti o biquini. Passei boas horas estirada ao sol, sentindo-me distante de todos os problemas da humanidade, tanto os da minha, quanto os da nossa.
A essas alturas eu já ia desenvolvendo o que vai se configurando como o meu estilo de viajar esta viagem: mais do que o que ver, como ver; e fazer o que me pede o corpo. Ou seja, se eu queria era tomar sol, não importa de era o inédito litoral da Ligúria; podia ser a praia de Copacabana ou o quintal da minha avó, igualmente.
Pratiquei revezamento de lado até as quatro da tarde, quando decidi praticar turismo - ou melhor, exploração de terras alheias.

Minha idéia era percorrer um trecho da  Passeggiata dell´Amore, esplêndida trilha nas montanhas que conecta as Cinco Terras; almoçar Trofie al Pesto, recomendado prato local, em algum pitoresco restaurante; pegar o trem ao pôr-do-sol e voltar tranquilamente para o hotel em La Spezia.

Mas, ao perguntar por informação, descobri que o trecho entre a vila onde estava e a próxima estava fechado, não sei porque. Além disso, se leva três horas para percorrer cada etapa, mais tempo do que eu gostaria de dispor, dada a intensidade do sol e o avançado da minha fome.
Toca pegar um trem para ir à próxima vila. Na caminhada entre a praia e a estação vi que havia muito mais gente circulando do que quando eu havia chegado. Um domingo que começou chuvoso mas se revelou ensolarado: todo mundo decidiu sair da toca.
A plataforma estava lotada.

Chegando na próxima vila, havia gente por todos os lados, e o pior: os restaurantes estavam fechados! Era tarde demais para almoçar, e cedo demais para jantar (nos é tão particular o conceito de almojanta de Domingo?).
Comi uma foccacia, sentada a uma mesinha na calçada de um bar, cuidando para não ser levada pela enxurrada de turistas que seguia baixando rumo ao mar.

Uma graça a vilazinha mas, dadas as condições, percebi que a melhor experiência que eu poderia ter das Cinco Terras eu já havia tido, especialmente ao havê-las visto do mar.
Resolvi pegar outro trem e ir logo embora para casa.

O trem atrasou e, com isso, juntaram-se gerações de usuários seus.

Vendo a multidão que se aglomerava na plataforma, e, temendo que dita sorte pudesse me acompanhar por minhas italianas aventuras de entressafra, decidi que o mais prudente seria encaminhar uma oração para o Santo Padroeiro dos Viajantes.

Mas quem seria ele!?
Já ensaiava pedir esclarecimento ao amigo leitor, quando me veio a luz.

Quem gosta de Gil e Jorge sabe.
Meu Glorioso...
São Cristovão!

Padroeiro dos viajantes ou Colombo, eu já não me sentia desamparada!


"Não nos deixeis cair em aglomeração
Mas livrai-me das hordas

Amém."


Bela, nublada.

Mágica, ensolarada.

Observem o tamanho do barquinho no mar. 



As hordas (das quais, não me esquivo, eu era parte).

sábado, 23 de abril de 2011

Obrigada, Colombo!

ou O Maravilhoso Caos Genoves


Sem entrar no mérito do descobrimento das Américas, obrigada Colombo por ter feito com que eu fosse a Genova.


Para começar, o tal hotel era charmosinho, sim. Não sei classificar o seu estilo; mas os pisos eram de taco de madeira, formando delicados padrões; todos os moveis também eram feitos do mesmo material; havia um elevador antigo, serpenteado por uma escada, ambos definidos por trabalhadas grades de ferro; e havia tapetes para todos os lados.
Agora, uma coisa inédita e que trouxe o toque brega ao estabelecimento foram duas plantas artificiais, quase da minha altura, que ficavam dentro do elevador.


Pela manhã, peguei um trem para o centro ("Não pague!", me aconselhou o gerente do hotel. "Eles nunca checam!". Mas eu paguei, herança das minhas estadas pelo norte. Reconhecendo, no entanto, o feeling de estar descendo rumo ao Equador).


Quando sai da estação Porta Principe, quem estava la?
Ele! O Cristovão, com toda a pompa, a saludar-me e a desejar que, em reciproca, pudesse ser eu também boa exploradora - de suas terras, desta vez.


Em uma lojinha de chineses, comprei um chapéu a la Indiana Jones. Sai com ele toda satisfeita mas, ao ver meu reflexo em uma vitrine, atinei para o cumulo do estereotipo da turista que eu representava. Oculos Ray-Ban, lenço no pescoço, polchete, maquina fotografica, mochila e, agora, chapéu.
Achei que estava dando muita bandeira (em cidade portuaria, nunca é bom bobear), e guardei o chapéu na mochila - ele vai ficar para os campos da Toscana.


Entrei em uma rua e dei de cara com outro estereotipo.
Sabe aquela coisa decadente mediterranea italiana?, fachadas pintadas em tons pastéis, janelas verdes-escuras, tudo meio poluido, meio torto, meio caindo; restaurantes com toldos também verdes nos andares térreos; inscrições em neon voando sobre as calçadas; e um montão de vespas estacionadas. I'm in Italy!
Alguns passos depois havia um arco, no lugar de uma casa, abrindo para um patio que ia descendo, definido por predinhos de seus seis, sete andares (mas que mais parecem casinhas espichadas). Sabe quando junta um monte de gente para caber em uma foto? Parece que essas casa estão se abraçando assim, uma de cada cor, todas de cores quentes, sempre querendo sair na foto.


Esse patio descendente ja deu um indicativo do que Genova ia ser: uma profusão de ruas, praças e patios acontecendo em alturas diferentes; cidade montanhosa, densa e colorida, subindo e descendo.
Ha uma rede de ruas largas preenchidas por vielas extremamente estreitas. Mesmo nelas, os prédios tem o gabarito mencionado anteriormente, de uns seis andares, de forma que tive a sensação de estar caminhando por profundas fendas urbanas.


Andando mais um pouquinho, por entre outros arcos eu vi um jardim.
Entrei e eis que aquilo era um museu.
Duas mulheres me abordaram para dizer que esta é a Semana Nacional do Museu, e que todos aqueles que sejam estatais oferecerão entrada gratuita. Baita tentação; eu sou chegada em um museu.
Mas o sol brilhava e, se eu fosse o Cristovão, exploraria primeiro as ruas, depois os museus, de forma que agradeci o convite (morrendo de pena) e segui em direção ao jardim.
Fonte no centro, simetria axial, pavimento trabalhado, plantas escultoricas.
Ah, sim, eu ja ia me esquecendo de comentar que eu ja ia muito satisfeita porque via pinheiros (não aqueles conicos, de Natal, dos Alpes, mas uns retorcidos, muito loucos, que o West 8 usa sempre que pode) e tamareiras para todo lado; vibrante vegetação mediterranea!


Descendo em direção ao mar, cai em uma arcada ogival que vai paralela ao mar (havendo, entre os dois, uma avenida e um viaduto. Por causa de a cidade ser tão desnivelada, os viadutos são necessarios; mas é claro que eles são muito feios. Por isso, eu diria que Genova não é estupenda, mas apenas maravilhosa.). A arcada é longa e abriga uma infinidade de lojas de todos os tipos, além de vendedores ambulantes. Paseei por ali e comprei umas coisainhas as quais necessitava.
Vi uma vendinha de frutos do mar, fritinhos e prontos para comer, apinhada de gente, e prometi voltar ali mais tarde.
Dei uma chegadinha no porto, mas não achei nada demais.


Encontrei um mercadinho ao ar livre. Havia uma tenda com as maiores e mais variadas azeitonas que ja vi na vida! O dono me deu duas para provar, uma verde e outra preta. Elas eram tão grandes que eu tive de comer por mordidas, segurando uma com as pontas dos dedos, e a outra ocupando perfeitamente a palma da minha mão. De-li-ci-o-sas. Poucas vezes na vida eu sorri tanto ao mastigar. Se eu fosse mais piegas, diria que a felicidade pode caber na palma da sua mão.
So não tive um surto de fotografar os produtos do mercado porque sei que esse era fichinha perto dos que verei nas semanas vindouras.


Decidi seguir então uma das tres rotas que o mapa da cidade sugeria. Entre Maritma, Renascentista e Medieval, escolhi a segunda.
Foi entrar nesse troço de malhar urbana para ficar chocada com a sequencia de igrejas e palacios que surpreendentemente surgem a cada esquina que se dobra (a tipologia dominante sendo as tais casas espichadas), a cada piazza que se descobre, a cada escadaria que se apresenta. é muita historia acumulada, muita coisa para se descobrir. E uma infinidade de antiquarios, galerias de arte, museus, lojas de vinho, de tudo quanto é comida...
E havia muita gente circulando, um monte de musico de rua tocando. Vibrante.


Na verdade, antes de fazer a rota renascentista, eu tinha parado em um internet café para inalgurar o blog. Passei ali boas duas horas e meia. Não me arrependo do investimento de tempo (o que o Colombo diria a respeito?) porque o blog é mesmo uma coisa que estou muito afim de fazer, e em algum momento teria que sentar e dar-lhe realidade. Mas o lado ruim foi que, depois, eu fiquei com aquele aperto da pressa, sabe?
Senti-me como uma criança em uma enorme loja de brinquedos, onde não lhe é dada comprar nada, mas brincar com cada coisa por dois minutos.
Passava instantes em lugares onde não me importaria ficar por horas.
Foi um pouco angustiante, mas maravilhoso mesmo assim.


Houve algumas pérolas no caminho.

A primeira e mais emocionante foi quando avistei uma grotta em um pátio. Uma fonte barroca vertical, feita em uma parede recoberta por pedras e vegetação, com um cupido derramando água de um vaso, na parte superior. Em baixo há um pocinho com carpas e, na frente, um arco decorado com figuras míticas.
Falando assim pode parecer coisa de restaurante chinês, mas não é. No West 8 usamos muito frequentemente as grottas italianas como referências para nossas próprias fontes.
Ver aquilo ao vivo, pela primeira vez, foi de chorar.
No prédio alo lado havia, no andar superior, uma pérgola de glicínias, que é outra coisa que se faz no escritório toda hora. Ver dito conjunto foi um momento inesquecível.

Outra pérola grande e redonda foi, ao chegar em uma inesperada piazzoleta, encontrar um grupo de senhores nos seus 70 anos de idade, reunidos em círculo, cantando em coro umas coisas lindas! Os edifícios ao redor criavam um espaço cuja proporção era, certamente, acusticamente favorável. As vozes que se provocavam e entrelaçavam subiam divinamente em direção ao céu.
Arrumei uma escadinha para sentar e fiquei sentada ali, sorrindo feito boba.

De resto, vou comentar as várias vezes que dei com gente jogando futebol nas ruas (com pano de fundo, por exemplo, uma antiga igreja medieval. Como se aquilo fosse, porque era, mesmo, a coisa mais normal do mundo.); a Porta Soprano, um dos acessos à cidade quando ela era totalmente conformada por muros; seu vizinho, o Claustro de S. Andrea, delicadíssimo remanescente do século XII (assim, em uma pracinha, sem grade, sem quem vigiasse, sem pichação); e minhas duas visitas à tal lojinha de frutos do mar.
Da primeira vez comi uma tal de Savoiarda Acetelli Polpo, uma salada vinagrete de polvo e camarão, e, da segunda, sardinhas e camarões fritos. Estava tudo tão bom que eu tive de perguntar se eles podiam contar como haviam preparado aquele à milanesa, ou se era segredo. Responderam em coro: segredo.

À noite rumei para La Spezia, que será meu ponto de partida para explorar as Cinqueterre.

I´m in Italy!

A grotta barroca que me fez chorar.

Por profundas fendas urbanas.

Fendas urbanas II


I´m in Italy! II

 Daria um belo desenho da Lina Bo Bardi.

Homenagem ao Cansaço

Nossa!
Enquanto o sol estava brilhando e o céu estava azul, achei os Alpes algo de deslumbrante.
Porque são, mesmo; um colosso da natureza.


Fortes silhuetas entrecortadas por milhares de pinheiros;
Montanhas verdes-escuras salpicadas por arvores brancas, frutos da primavera;
Caudalosos rios serpenteando mansamente;
Vaquinhas de leite cremoso pastando à relva;
Branca neve elevando o olhar ao céu.


As primeiras vilazinhas me parecem muito pitorescas.


Mas houve algo em seu tamanho que, logo, me incomodou.
Elas são tão pequenininhas, e seu espeço fisico é tão completamente delimitado pelas montanhas, que senti um ligeiro aperto.
Não ha linha do horizonte. Nunca.
Ha enormes muralhas de enorme beleza; belas muralhas que projetam sombras tão enormes quanto si.
Se agora, em abril, a luz do sol ja vai cedo demais, imagina a sensação em dezembro; baita escuridão!
Além do que, se um malfeitor decide fechar meia duzia de tuneis e autoestradas, essa gente toda não tem para onde ir! Estariam encerradas no mais espetacular poço da Terra.


E as casas... todas muito parecidas umas com as outras. Nada de errado ai, essa seria a tipologia otima atingida ao longo dos séculos. Mas os telhados... são cinzas.
E as pedreiras... frequentes.


E as gentes, tão poucas que, se voce nasce e cresce ai, participara de um circulo social de poucas centenas de pessoas, a vida toda.
Reconheço aqui minha sindrome urbanoide (da mesma forma que, na India, fui reconhecer meu ocidentalismo).
Reconheço aqui, também, minha necessidade de horizonte (vejam a cidade de onde venho) e de uma geografia mais percorrivel.
Seria baixar com esse pessoal para o mar para ve-los, provavelmente, sentirem-se desprotegidos.


Fico olhando também as obras civis, como as relacionadas ao sistema ferroviario, e, de alguma maneira, relaciono essas imagens com outras que ja vi em documentarios sobre a primeira e a segunda guerras mundiais.
Ai tudo aqui ainda fica cheirando a esse passado triste...




Seguramente essas sensaçoes foram potencializadas pelo cansaço.
Eu observava a Peanut, essa semana, no esplendor do seu ano e meio de idade, e o desespero que se abate sobre ela quando ela fica cansada. Chora, berra, esperneia.
Com os anos, a gente aprende que não pode fazer essas coisas sempre que da vontade; mas, vendo-a, combinei comigo mesma que, a partir de agora, vou entender e aceitar o poder do cansaço sobre minhas emoçoes.
Embora não va chorar, berrar e espernear, não vou me espantar ao perceber que gostaria de fazer exatamente isso.


Antes...



e depois.



quinta-feira, 21 de abril de 2011

Primeiro Dialogo em Italiano

O recepcionista do hotel em Genova atende o telefone:

- Hotel Moderno Verdi, buonasera.
- Buonasera. Io ho una prenotazione per oggi. Io arrivo, pero un po' tarde, a mezzanotte.

(Diz a Stella, minha prima 50% made in Italy, que eu falo italiano com sotaque de novela das oito, tipo Passione e Terra Nostra. é mentira.)

- Come si chiama?
- Mariana Siqueira.
- Mariana... Siqueira. OK. Va bene.

Silencio...
Eu consegui! Foi facil!!!
Animada, agradeci:

- ¡Muchas gracias!

Porca miseria!

No Meio do Caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra

 
Nunca me esquecerei dêsse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.


    Carlos Drummond de Andrade


Pela manha, seguimos rumando ao leste.
Fazia sol, mas o céu nao estava azul, e sim maquiado por uma neblina distante e difusa, destas que produzem calor.
Depois de umas horinhas, falou a Theresa:
- Mariana. La. Na linha do horizonte. Nao da para ver, por causa da neblina... mas tenho a impressao de que ha uma impressionante silhueta de montanhas, à frente.
Seriam os Alpes.
- Voce ve alguma coisa?
Entao foi muito louco, porque comçamos a ter ilusoes de otica. Pensavamos ver de relance paredoes absurdos ao horizonte, que, logo, desapareciam.
Meia hora passamos na pirante incerteza, até que a cadeia de montanhas foi se tornando definida, em camadas sucessivas. Umas linhas mais proximas, outras mais afastadas, outras mais ainda, e aquelas que deviam estar no reino da fantasia - ou nao.
Sera que aqui podemos estabalecer uma metafora com aquilo dos sonhos, e de torna-los realidade, que comentei no post anterior?
Logo estavamos dirigindo por entre sensacionais maciços de pedras, e avistando picos nevados ao longe.

Eles me deixaram em Grenoble, cidade rodeada por altas montanhas. Eles contaram que esta é a cidade buscada por aqueles que querem ter um trabalho "sério", em uma empresa, mas que curtem a natureza e os esportes radicais.
De cara, achei as pessoas mais bem humoradas do que aquelas com quem cruzei no restante da França.

Esperava o trem na plataforma, quando foi anunciada a mudança da mesma.
Aconteceu algo, entao, que me deixou chocada.
Eu levava duas mochilas e uma mala (uma mochila média de roupas, uma pequena de artigos variados e uma mala com barraca e colchonetes, para acampar na Toscana, mais tarde).
Eis entao que uma menina me ofereceu ajuda para carrega-las de uma plataforma à outra.

Nao sei se dito fato causa ao leitor semelhante espanto.

Mas eu, depois de tres anos de Holanda, onde uma pessoa é invisivel à outra, fiquei bastante impressionada, para nao dizer desconfiada (aqui foram os 25 anos de Brasil que falaram), com a menina levando minha mochila. E me ajudando com a mala ao subir as escadas.

Deu tudo certo; menos com o trem.
O bichinho atrasou e, com isso, eu perdi todas as conexoes que me levariam a Genova.
Toca resolver a situaçao na primeira parada, valendo-me de meu crassissimo frances. Com muita paciencia, o homem da cia. de trem fez todos os malabarismos necessarios para que eu chegue, ainda hoje, à cidade de Cristovao Colombo.
Agora estou, a horas, esperando e escrevendo (sempre a mao, em um caderno), na estaçao de trem de uma tal de Chambery-Challes, em plenos Alpes Franceses.
O povo aqui fala bonjour e au revoir e eu me sinto bem satisfeita com isso.

Ja nao era ilusao...



no meio do caminho tinha uma pedra



tinha uma pedra no meio do caminho



tinha uma pedra.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Ao Sul e ao Leste

Deixamos Bussiere-Buffy ontem e rumamos ao sul.


Visitamos quatro propriedades rurais. Nem haveria sido necessario tanto, ja que, com a primeira propriedade, foi amor aa primeira vista.
O flerte teve inicio minutos antes de chegarmos ao local: começamos a suspirar quando se descortinaram colinas roliças de grama repletas de florezinhas amarelas. Viva a primavera! O céu nao poderia haver estado mais azul, nem a grama mais verde, nem as florezinhas mais adoraveis. A essa palheta se adicionavam arvores frutiferas no esplendor de sua floraçao ou branca ou cor-de-rosa.
A propriedade em questao consiste em duas construçoes antigas - uma casa e um celeiro, ambos do século XVIII -, feitas em pedra e madeira; e uma casa do séc. XX, menos charmosa, mas mais habitavel. Ha uma pequena area arborizada, ja pronta para receber a funçao de camping; um galpao para ferramentas; e bastante area livre.
O assentamento esta no topo de uma colina, dividindo-o com algumas outras poucas casas, e ha vistas que se abrem para campos mais além.
Como nao poderia deixar de ser, na parte mais baixa corre um regato.


Quando o Wilbert perguntou minha opiniao, a resposta vaio apenas somar-se a aquilo que eles claramente sentiam: nao era necessario nenhum esforço da imaginaçao para ve-los ali instalados; seu albergue funcionando, o camping sendo utilizado, as galinhas cacarejando, a horta florescendo, o jazz cigano tocando, o fogo crepitando, as estrelas cintilando, sua longa mesa de madeira recebendo aqueles que querem desfrutar de uma cozinha/taberna aa moda antiga, com forno aa lenha e produtos frescos.


Confesso que, ao ve-los tao perto de realizar seu sonho, me perguntei a que distancia estarei de realizar os meus, que tem esboços firmes e contornos ainda incertos.


Das quatro propriedades, o objetivo era encontrar uma internet para mim, missao nada facil nesses cafundos da Limousin. Foi um ingles, dono de um bar, que me cedeu seu lap-top, com muita simpatia, ao preço de algumas Oranginas.
Meu plano era comprar uma passagem de trem Grenoble (FR) - Cinqueterre (IT). Pensei passar o fim de semana neste fantastico conjunto de vilazinhas de percado aa beira mar, com bosques, penhascos, casinhas coloridas e muito molho pesto. De forma que a minha missao era encontrar um hotelzinho bacana, onde pudesse pernoitar duas ou tres vezes.
Acontece que tudo o que encontrava era ou caro ou brega. Onde foi parar a simplicidade elegante!? E eu tinha chegado à conclusao de que, ja que estaria sozinha, que fosse num quarto que me agradasse. Com companhia, é mais facil acampar, passar a noite em claro, ficar em lugar brega... Mas assim, de estréia, e sem ninguém para rir comigo da decoraçao brega, queria, repito, um lugar bem aconchegante.
E foi nessa busca que passei muitissimos minutos improficuos.
Eu me sentia apressada por meus acompanhantes que, de boa vontade, tomavam suas Oranginas e conversavam com o agente imobiliario. Fui ficando meio nervosa e atrapalhada, e decidi chegar primeiro a uma grande cidade, para que, pela manha, pudesse calmamente decidir onde me hospedar em Cinqueterre, fazendo necessarias chamadas a preços locais e etc.


Escolhi Genova, que também esta no litoral da Liguria, perto das tao benquistas vilazinhas.
(Pelo o que vi nos guias, a cidade nao parece ser la muito atraente. Alias, eu e as cidades portuarias; Rotterdam, Hamburgo e, agora, Genova. Mas confesso, ca entre nos, que o que deu o empurraozinho final para a escolha do pouso foi o fato de o Cristovao Colombo ser, supostamente, de la. Eu sei que isso é bobagem, que eu nao vou encontra-lo pelas ruas, mas, po, é ou nao é uma cidade que, por sua causa, ouvimos falar desde a segunda série do primario!?)
Vi que o trem ia chegar tarde, oito e meia da noite. Como li, também, que ela nao é das cidades mais seguras, meu parametro para a escolha do hotel foi a proximidade em relaçao à estaçao de trem. Foi assim que acabei reservando, às pressas, um desses hotéis de rede, basicos. Que falta de charme, nao? Pelo menos, esse fica em um edificio antigo, exemplo da arquitetura de estilo tal, que nem me lembro mas que, se valer a pena, eu conto mais adiante.


Saindo, entao, do bar do ingles com internet, dirigimos por umas tres horas sentido leste - ou, leia-se, Italia.


Foi interessante ver a paisagem mudando, entre uma dormida e outra, dos idilicos campos de frescos verdes primaveris, para montanhas cobertas por pinheiros, com uma gama de cores mais restrita e de tons mais escuros. A arquitetura também foi mudando, aos poucos. Embora ainda de pedras, parece que as casas iam adquirindo a tipologia das construçoes de madeira germanicas.
Nao era uma regiao muito turistica e, por isso, tivemos dificuldade em encontrar um camping. Chegamos em um com os ultimos raios de sol. Ele estava fechado, pois ainda nao é época, mas nos deixaram entrar, mesmo assim.
Assamos linguiças e pimentoes, e tomamos cervejas em nossa ultima noite juntos. O céu estava superestrelado.
Dormimos mal: eu com frio, O Wilbert com dor de cabeça, e a Theresa com o bebe chorando.


Na noite seguinte eu haveria pisado na Italia pela primeira vez.




Verdejantes campos da Limousin; florezinhas deram as boasvindas aa familia.


"O galinheiro pode ser ali..."



sexta-feira, 15 de abril de 2011

Poullet à la Gypsy

(Esta postagem contem imagens improprias para vegetarianos.)

Antes mesmo de chegarmos à Limousin, W e T me haviam prometido que o Marco assaria na brasa um Frango à Mostarda que, aparentemente, consiste em nada mais que frango lambuzado de mostarda, assado na brasa.
Passei dias fantasiando com o negocio.
Mas, chegando la, a inspiraçao do Marco apontava em outra direçao. Com o frango que compramos, ele preparou rapidamente, e com terrivel destreza, o prato que aqui vos conto.

Frango à Cigana
(Poullet à la Gypsy, Marco Lenhador, Bussiere-Buffy)

- Abrir um frango inteiro, limpo, na metade.
- Abrir todas as juntas e a carnedo peito com cortes (mas atençao para nao esquartejar o bichinho!).
- Temperar com sal grosso, manjericao desidratado (muito! Repito: muito mesmo!), pimenta do reino moida na hora. Lembrar-se de levar o sabor ao interior das juntas, também.
- Assar a um palmo, aproximadamente, da brasa, que deve estar tao branca quanto possivel e nao apresentar chamas.

Frango aberto, semitemperado, e recebendo cortes nas juntas.



Marco prestes a efetuar o passo seguinte da alquimia.


Ele adverte: evite as chamas!, elas sao toxicas!


Eita cheiro!


Formarao-se bolhinhas na pele do frango, o que, segundo o Marco, é terriblement bon. Ai voce deve virar, virar, virar...
Ele até inventou de assar o frango nao so de costas e barriga, mas de cabeça para cima e para baixo, também. (Mas sua namorada me confessou, em segredo, que aquilo era bobagem.)

Ele tem também uma outra teoria interessante: que o frango deve descansar, apos assado, durante o mesmo tempo que levou na brasa (no nosso caso, meia hora). Desta forma, a carne adiquirira aquele maravilhoso sabor de comida comida no dia seguinte. (Ou, quem sabe, com a espera, as papilas gustativas dos convidados se tornam especialmente aptas para apreciar a iguaria). Ha de voltar o bichinho aa grelha para esquentar outra vez, antes de servir.


De cabeça para baixo.

Frango descansando: é chato ser gostoso.


Essa historia de cortar as juntas serve, em minha opiniao, para secar o frango, enquanto ele cozinha. Agora, eu, particurlamente, prefiro a carne mais molhadinha.
Ele aproveitou a situaçao para me ensinar seu truque sobre assar carne vermelha: nao se pode por sal antes de seu cozimento, mas apenas depois, no prato. Segundo ele, isso faz com que ela fique mais suculenta.



Bon apetit!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Nos Cafundos da Limousin

Wilbert, Theresa e Peanut me pegaram na casa do Kike em um ensolarado sabado pela manha.
Tanto sol fazia que decidimos dirigir pouco, naquele dia, para poder acampar aa meia tarde e desfrutar o bom tempo.
Montamos barraca em um campo nas Ardenes, na Bélgica. Que boa sensaçao deixar os polders para tras e rodear-me de montanhas, sentir o frescor da brisa (e nao o da ventania) e até deitar-me, de top, ao sol. Dei graças por poder reestabelecer meu processo de fotossintese, interrompido na Holanda. Ha meses fiz um check-up e deu que estou com deficiencia de vitamina D. Por falta de laticinios nao sera.
No dia seguinte, continuamos a viagem até chegar a Bussiere-Buffy, na provincia da Limousin, bem ali onde Judas perdeu as botas, na França.
Desde o inicio da nossa amizade, W e T falam do seu fantastico amigo Marco, a quem conheceram nos idos de seus dias nos Pirineus; um ser quase selvagem, de queda no submundo urbano e ascençao na natureza.
Ele é fundamentalmente um lenhador, e é daquele tipo que sabe se virar na vida com apenas um canivete e um isqueiro (acho que fogo com pedras ele ainda nao sabe fazer). Pode escrever, mas lhe custa mais empunhar um lapis que um machado. Nao tem telefone, é claro.
Entao visitar o Marco é sempre uma surpresa. Ele pode ou estar na habitaçao social que lhe foi dada em Bussiere-Buffy (o que parece ser a opçao menos provavel), ou em sua caravana-charrete nos campos vizinhos ou... por ai. Nunca se sabe.
Estacionamos diante da casa e vimos sua namorada na janela. Ele apareceu em seguida e gritou:
- PEANUT!
Foi um caloroso reencontro. Ficamos comendo queijo e bebendo vinho até a noite. O Marco explicou: na França voce pode até ser pobre, mas sempre vai comer bem.
Ele colocou um som, em fita cassete. Manu Chao. O que ia bem com os artefatos rastafaris pendurados nas paredes. Quando terminamos de ouvir os dois lados, ele disse que ia por entao aquilo que mais gostava de ouvir, um som merveilleux.
Remexeu na sua coleçao de fitas, escolheu uma e colocou-a no aparelho. Apertou play e esperamos. Silencio com chiadinho e....
Pagode! Sim!, Marco, o lenhador frances, é fa de pagode!
Ele tem um irmao que, nao sei por que cargas d'agua, foi parar um dia no Brasil. Apaixonou-se por uma mulher, creio que no Nordeste. Dela absorveu o gosto musical. A certa altura seu visto acabou, e ele teve de deixar o pais. Prometeu voltar. Hoje esta na Nova Caledonia, construindo o barco (ele é marinheiro) com o qual saira com a indefectivel tarefa de recuperar o seu amor.
Embalada pelo ritmo, passei uma semana fazendo o que queria. Para começar, dormi muito. Ia para a cama quase que com a Peanut, com seus dez meses de idade, e acordava cedo, com ela, também. Dormia varias sestas por dia. Li guias de viagem, estudei Italiano, escrevi, desenhei, caminhei. Tudo o que adoro, mas que nao tive tanto tempo para fazer nos ultimos tres anos (louca vida levamos os arquitetos...). Como meu frances vai de inexistente a ruim, permiti-me participar das conversas so quando tinha vontade mesmo. Solidao com ruidinho de fundo, muitas vezes é meu estilo favorito.
Até porque o Marco tava muito reclamao.
Esbravejava contra o tirano prefeito da cidade, contra a falta de liberdade, contra a condiçao de marginalidade que lhes é imposta dia a dia.
Agora, imaginem voces. Ele mora em uma habitaçao social, um predinho de dois andares, dois apartamentos por andar. Ele ocupa um deles, em cima, e sua namorada outro, embaixo. Os outros dois estao vazios. Entao aquilo é quase uma mansao: o quintal todinho para eles, musica alta (da-le pagode!), portas abertas, agua quente e calefacao, tudo de graça. Ali faziamos fogueira, churrasco, comiamos ao ar livre, deitavamos na grama, etc etc. Até sua charrte estava estacionada ali. Além do que, ele passou a semana com a gente, coçando a barriga. Uma vez por dia, vez uma visita aas terras que lhe foram emprestadas, para alimentar seus cavalos e cabras. E, quando cansa da "cidade", pega sua caravaninha aa traçao animal e vai perder-se pelo bosque, ou passear pelo campo.
Haveria de madar-lhe a uma das tantas favelas que se espalham pelo mundo, para ele ver que tem a vida que muita, mas muita gente mesmo, pediu a Deus!
Mas, como diz um, "cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é". Ou, como diz o genio popular, "ema, ema, ema, cada um com seus problema".
Eu fiquei bastante impressionada com um aspecto das vilazinhas da regiao: nao havia viv'alma nas ruas. Nem no interior da Bélgica vi algo igual.
E nao era porque fosse fim de semana, nem o contrario. Fiquei um pouco preocupada com o Wilbert e a Theresa, e, especialmente, com a Peanut, indo morar la. Mas, segundo ela, isso é exatamente o que buscam. Ema, ema, ema.
Eu queria muito usar a internet para começar logo o blog. Eles me levaram de carro até a maior vila da regiao mas, chegando la, talvez houvesse, na biblioteca, mas ela estava fechada. o Marco disse entao que em Nouic, vilarejo a 5km de distancia de sua casa, eu encontraria, na prefeitura, uns computadores que poderia usar. La fui eu, caminhando.
A certa altura, cismei que tinha pego o caminho errado, porque a tal Nouic nao chegava nunca.
Precisava muito de pedir informaçao, mas para quem!? De sorte que seguia andando. La pelas tantas, avistei um agrupamento de casas. Subi a estradinha até elas e postei-me diante de uma casa, batendo palmas e gritando "bonjour!", mas ninguém vinha em meu socorro. Quando ja nao sabia mais o que fazer, vi, por entre uma casa e outra, a torre de uma igreja, ao longe. Onde ha fumaça, ha fogo, onde ha torre de igreja, ha de haver internet.
Andei e encontrei Nouic e seus computadores.
Foi assim que vivenciei na pele um aspecto da vida medieval. As torres eram marcos na paisagem, indicando onde estavam os centros urbanos. quanto mais alta a torre, mais aquecida a economia, pois mais gente passava por ali.
So nao me senti mais agradecida a Nouic e sua torre porque os computadores que encontrei ali nao tinham entrada USB para as fotos (se ao menos elas estivessem em disquete...) e o teclado frances nao convida muito a escrever...
Entao valeu a caminhada, valeu a paisagem, com suas arvores em flor e cabritinhos; mas o blog ficou para depois.

Ready or not, here we go!



Um passeio pelas Ardenes, onde acampamos.


O quintal da habitaçao social, onde faziamos fotossintese.





As vilas fantasmas da Limousin
(onde, incrivelmente, mora gente!).




Em caminhada rumo aa Nouic.

A torre de Nouic, que nao me deixou desistir de minha busca pelos computadores.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Uma breve história de amor

O Wilbert, que cozinhou o maravilhoso Frango Dentro do Pote com Tampa, e com quem eu trabalhava no West 8 (ele é o técnico de informatica, la), conheceu a Theresa, uma americana, ha uns anos, ao fazerem trabalho voluntario em um sitio organico perto dos Pirineus, na França.
Parece que viveram ai um pequeno idilio.
Depois houve complicaçoes, creio que devido a distancia, quando cada um voltou ao seu pais.
Ao final, o amor falou mais forte e a Theresa foi morar na Holanda.
Ai foi questao de meses para marcar o casamento. Eu mal os conhecia, entao, quando resolvi comparecer aa cerimonia. Peguei aviao, trem e taxi para chegar ao magico lugar onde eles se conheceram. A festa durou sete dias e sete noites (pena que eu cheguei so para a ultima noite. Mas valeu toda a viagem), ao som de grupos de jazz cigano e ao crepitar do fogo.
Eles falavam que nao queriam ter filhos, mas ficaram imediatamente contentes quando a Theresa ficou gravida. Foram corajosos o suficiente para manter sua palavra de que, se um dia, por acaso, tivessem uma filha, ela se chamaria Peanut ("afinal, quem pode ficar bravo com uma garotinha com esse nome?"). é nome, nao é apelido, e esta registrado em cartorio.
Convencidos de que a vida que levavam na época do sitio organico é a ideal para eles, vao comprar terra em algum lugar mais quente que a Holanda e fazer um albergue, um camping, plantar umas coisas, e ser felizes para sempre.
Fizeram um primeiro giro pela regiao do Limousin, na França, na semana passada. Eu os acompanhei e esse foi o primeiro capitulo das minhas Aventuras de Entressafra.

A feliz familia Duvensteijn

sábado, 9 de abril de 2011

doei! rotterdam

(Começo pedidndo desculpas pela falta de acentos que se segue. Nem sempre é possivel adaptar o idioma do computador que estou usando ao Portugues.)

Os ultimos dias da etapa holandesa da minha vida passei na casa do Kike, um querido amigo espanhol. Além de sua deliciosa companhia, a vista de sua janela oferece a despedida perfeita da cidade, com a Erasmus Brug saltando o Rio Maas, mirada do vigésimo andar de seu edificio.


Ponte Erasmus e Rio Maas

Esses dias foram marcados por encontros com amigos queridos, muito empacotamento, em uma bela festa de despedida. Planejei tudo para que pudesse ser uma festa de arromba, tao necessitada nas aridas paisagens noturnas de Roterdam.


Convite para a festa de despedida


O fundamental: bebida, forte. Comprei onze litros de diferentes tipos de alcoois destilados, e preparei jarras e mais jarras e mojito e caipiroska.
Em relaçao às pessoas, nao apenas postei o convite na internet, mas entreguei pequenas impressoes a mao, uma por uma, além de escrever emails personalizados. Pensei na musica, na decoraçao e, certamente, na comida.
Fiz questao de nao deixar comida demais disponivel, porque, ca entre nos, em festa que se come muito se bebe pouco e, nesse caso, queria que dançassemos até as seis da manha. Por isso fiz quilos de cachorros-quentes, mas os deixei deiponiveis apenas depois das duas da manha.
Recebi, no entanto, contribuiçoes de amigos nesse quesito. O Etsel, cuja familia creio ser de Curaçao, trouxe umas empanadas fritas que faz a sua mae, pelas quais sou louca, que foram devoradas em etapas, a medida que eu as liberava de dentro fo forno.
O Wilbert, um querido amigo holandes de quem falarei mais, adiante, preparou uma espécie de pate de frango imperdivel (nao saberia como classifica-lo melhor).
Postarei, portanto, o feitio desse pate, o qual assisti, pois foi feito em sua casa na noite anterior, como estréia do conjunto de jeitos de fazer comida que se seguirao neste blog. Falo em "jeitos de fazer", e nao em receitas, porque dificilmente me ligo nas quantidades exatas dos ingredientes, me importando mais com o "espirito do prato". Ainda assim, usarei o termo receita aqui e ali, mas voces ja saberao do que estou falando.

Frango assado em cerveja escura belga dentro de um pote com tampa
(Stoofpot van kip met Belgisch donker bier, Wilbert, Roterdam)
O nome em portugues ficou horrivel! Aceito sugestoes de como traduzi-lo.

Um recipiente que se possa tapar e levar ao forno (uma panela funda de ferro com tampa é a pedida ideal) onde colocaremos:
- Um frango com ossos (inteiro ou em pedaços)
- Tres cervejas escuras (de preferencia belgas)
- Alho
- Cebola
- Bacon
- Pimentao
- Cogumelos frescos (opcional)
- Ervas de sua preferencia



O Wilbert recomenda: tres cervejas
para cozinhar, e uma para beber.

Ele nao colocou sal, alegando que o bacon ja é muito salgado. Mas nos, de paladar mais equatorial, sabemos que é preciso utiliza-lo, sim.

O pote com sua tampa deve entao ir ao forno por ao menos tres horas, em temperatura entre 180°C e 200°C.
O legal é que o pote, a certa altura, se converte em um mini-forno, de forma que, no fim, tudo dara uma secadinha e a superficie do frango ficara crocante.

Voce pode parar por ai e impressionar seus amigos com um jantar de primeira; ou pode dar um passo a mais, para transformar o frango no tal pate maravilhoso, ideal para festas e afins.

Para isso: desfie o frango, rejeitando ossos e peles. Misture-o com o conteudo do pote.
Na hora de servir, adicione
- creme de leite fresco e
- cebolinha (daquela mais fininha) picadinha.

Resultado foi que comemos muito bem, mas nem por isso bebemos menos :)
A festa seguiu de fato até as sete da manha, e foi um maravilhoso jeito de beijar e abracar todo mundo, agradecendo o pessoal por haver feito parte da minha vida nesse periodo.