Sem entrar no mérito do descobrimento das Américas, obrigada Colombo por ter feito com que eu fosse a Genova.
Para começar, o tal hotel era charmosinho, sim. Não sei classificar o seu estilo; mas os pisos eram de taco de madeira, formando delicados padrões; todos os moveis também eram feitos do mesmo material; havia um elevador antigo, serpenteado por uma escada, ambos definidos por trabalhadas grades de ferro; e havia tapetes para todos os lados.
Agora, uma coisa inédita e que trouxe o toque brega ao estabelecimento foram duas plantas artificiais, quase da minha altura, que ficavam dentro do elevador.
Pela manhã, peguei um trem para o centro ("Não pague!", me aconselhou o gerente do hotel. "Eles nunca checam!". Mas eu paguei, herança das minhas estadas pelo norte. Reconhecendo, no entanto, o feeling de estar descendo rumo ao Equador).
Quando sai da estação Porta Principe, quem estava la?
Ele! O Cristovão, com toda a pompa, a saludar-me e a desejar que, em reciproca, pudesse ser eu também boa exploradora - de suas terras, desta vez.
Em uma lojinha de chineses, comprei um chapéu a la Indiana Jones. Sai com ele toda satisfeita mas, ao ver meu reflexo em uma vitrine, atinei para o cumulo do estereotipo da turista que eu representava. Oculos Ray-Ban, lenço no pescoço, polchete, maquina fotografica, mochila e, agora, chapéu.
Achei que estava dando muita bandeira (em cidade portuaria, nunca é bom bobear), e guardei o chapéu na mochila - ele vai ficar para os campos da Toscana.
Entrei em uma rua e dei de cara com outro estereotipo.
Sabe aquela coisa decadente mediterranea italiana?, fachadas pintadas em tons pastéis, janelas verdes-escuras, tudo meio poluido, meio torto, meio caindo; restaurantes com toldos também verdes nos andares térreos; inscrições em neon voando sobre as calçadas; e um montão de vespas estacionadas. I'm in Italy!
Alguns passos depois havia um arco, no lugar de uma casa, abrindo para um patio que ia descendo, definido por predinhos de seus seis, sete andares (mas que mais parecem casinhas espichadas). Sabe quando junta um monte de gente para caber em uma foto? Parece que essas casa estão se abraçando assim, uma de cada cor, todas de cores quentes, sempre querendo sair na foto.
Esse patio descendente ja deu um indicativo do que Genova ia ser: uma profusão de ruas, praças e patios acontecendo em alturas diferentes; cidade montanhosa, densa e colorida, subindo e descendo.
Ha uma rede de ruas largas preenchidas por vielas extremamente estreitas. Mesmo nelas, os prédios tem o gabarito mencionado anteriormente, de uns seis andares, de forma que tive a sensação de estar caminhando por profundas fendas urbanas.
Andando mais um pouquinho, por entre outros arcos eu vi um jardim.
Entrei e eis que aquilo era um museu.
Duas mulheres me abordaram para dizer que esta é a Semana Nacional do Museu, e que todos aqueles que sejam estatais oferecerão entrada gratuita. Baita tentação; eu sou chegada em um museu.
Mas o sol brilhava e, se eu fosse o Cristovão, exploraria primeiro as ruas, depois os museus, de forma que agradeci o convite (morrendo de pena) e segui em direção ao jardim.
Fonte no centro, simetria axial, pavimento trabalhado, plantas escultoricas.
Ah, sim, eu ja ia me esquecendo de comentar que eu ja ia muito satisfeita porque via pinheiros (não aqueles conicos, de Natal, dos Alpes, mas uns retorcidos, muito loucos, que o West 8 usa sempre que pode) e tamareiras para todo lado; vibrante vegetação mediterranea!
Descendo em direção ao mar, cai em uma arcada ogival que vai paralela ao mar (havendo, entre os dois, uma avenida e um viaduto. Por causa de a cidade ser tão desnivelada, os viadutos são necessarios; mas é claro que eles são muito feios. Por isso, eu diria que Genova não é estupenda, mas apenas maravilhosa.). A arcada é longa e abriga uma infinidade de lojas de todos os tipos, além de vendedores ambulantes. Paseei por ali e comprei umas coisainhas as quais necessitava.
Vi uma vendinha de frutos do mar, fritinhos e prontos para comer, apinhada de gente, e prometi voltar ali mais tarde.
Dei uma chegadinha no porto, mas não achei nada demais.
Encontrei um mercadinho ao ar livre. Havia uma tenda com as maiores e mais variadas azeitonas que ja vi na vida! O dono me deu duas para provar, uma verde e outra preta. Elas eram tão grandes que eu tive de comer por mordidas, segurando uma com as pontas dos dedos, e a outra ocupando perfeitamente a palma da minha mão. De-li-ci-o-sas. Poucas vezes na vida eu sorri tanto ao mastigar. Se eu fosse mais piegas, diria que a felicidade pode caber na palma da sua mão.
So não tive um surto de fotografar os produtos do mercado porque sei que esse era fichinha perto dos que verei nas semanas vindouras.
Decidi seguir então uma das tres rotas que o mapa da cidade sugeria. Entre Maritma, Renascentista e Medieval, escolhi a segunda.
Foi entrar nesse troço de malhar urbana para ficar chocada com a sequencia de igrejas e palacios que surpreendentemente surgem a cada esquina que se dobra (a tipologia dominante sendo as tais casas espichadas), a cada piazza que se descobre, a cada escadaria que se apresenta. é muita historia acumulada, muita coisa para se descobrir. E uma infinidade de antiquarios, galerias de arte, museus, lojas de vinho, de tudo quanto é comida...
E havia muita gente circulando, um monte de musico de rua tocando. Vibrante.
Na verdade, antes de fazer a rota renascentista, eu tinha parado em um internet café para inalgurar o blog. Passei ali boas duas horas e meia. Não me arrependo do investimento de tempo (o que o Colombo diria a respeito?) porque o blog é mesmo uma coisa que estou muito afim de fazer, e em algum momento teria que sentar e dar-lhe realidade. Mas o lado ruim foi que, depois, eu fiquei com aquele aperto da pressa, sabe?
Senti-me como uma criança em uma enorme loja de brinquedos, onde não lhe é dada comprar nada, mas brincar com cada coisa por dois minutos.
Passava instantes em lugares onde não me importaria ficar por horas.
Foi um pouco angustiante, mas maravilhoso mesmo assim.
Houve algumas pérolas no caminho.
A primeira e mais emocionante foi quando avistei uma grotta em um pátio. Uma fonte barroca vertical, feita em uma parede recoberta por pedras e vegetação, com um cupido derramando água de um vaso, na parte superior. Em baixo há um pocinho com carpas e, na frente, um arco decorado com figuras míticas.
Falando assim pode parecer coisa de restaurante chinês, mas não é. No West 8 usamos muito frequentemente as grottas italianas como referências para nossas próprias fontes.
Ver aquilo ao vivo, pela primeira vez, foi de chorar.
No prédio alo lado havia, no andar superior, uma pérgola de glicínias, que é outra coisa que se faz no escritório toda hora. Ver dito conjunto foi um momento inesquecível.
Outra pérola grande e redonda foi, ao chegar em uma inesperada piazzoleta, encontrar um grupo de senhores nos seus 70 anos de idade, reunidos em círculo, cantando em coro umas coisas lindas! Os edifícios ao redor criavam um espaço cuja proporção era, certamente, acusticamente favorável. As vozes que se provocavam e entrelaçavam subiam divinamente em direção ao céu.
Arrumei uma escadinha para sentar e fiquei sentada ali, sorrindo feito boba.
De resto, vou comentar as várias vezes que dei com gente jogando futebol nas ruas (com pano de fundo, por exemplo, uma antiga igreja medieval. Como se aquilo fosse, porque era, mesmo, a coisa mais normal do mundo.); a Porta Soprano, um dos acessos à cidade quando ela era totalmente conformada por muros; seu vizinho, o Claustro de S. Andrea, delicadíssimo remanescente do século XII (assim, em uma pracinha, sem grade, sem quem vigiasse, sem pichação); e minhas duas visitas à tal lojinha de frutos do mar.
Da primeira vez comi uma tal de Savoiarda Acetelli Polpo, uma salada vinagrete de polvo e camarão, e, da segunda, sardinhas e camarões fritos. Estava tudo tão bom que eu tive de perguntar se eles podiam contar como haviam preparado aquele à milanesa, ou se era segredo. Responderam em coro: segredo.
À noite rumei para La Spezia, que será meu ponto de partida para explorar as Cinqueterre.
I´m in Italy!
A grotta barroca que me fez chorar.
Por profundas fendas urbanas.
Fendas urbanas II
I´m in Italy! II
Daria um belo desenho da Lina Bo Bardi.
Itália, sempre Itália, eterna Itália, quanta saudade. Fiz este caminho quando estava de volta ao Brasil após quase um ano de aventura por aí. Fiz o caminho do Cristóvão e agora no Brasil, resta a vontade de voltar e fazer uma releitura de tudo isto. Espere por mim Itália.
ResponderExcluirTitonho.