Tanto sol fazia que decidimos dirigir pouco, naquele dia, para poder acampar aa meia tarde e desfrutar o bom tempo.
Montamos barraca em um campo nas Ardenes, na Bélgica. Que boa sensaçao deixar os polders para tras e rodear-me de montanhas, sentir o frescor da brisa (e nao o da ventania) e até deitar-me, de top, ao sol. Dei graças por poder reestabelecer meu processo de fotossintese, interrompido na Holanda. Ha meses fiz um check-up e deu que estou com deficiencia de vitamina D. Por falta de laticinios nao sera.
No dia seguinte, continuamos a viagem até chegar a Bussiere-Buffy, na provincia da Limousin, bem ali onde Judas perdeu as botas, na França.
Desde o inicio da nossa amizade, W e T falam do seu fantastico amigo Marco, a quem conheceram nos idos de seus dias nos Pirineus; um ser quase selvagem, de queda no submundo urbano e ascençao na natureza.
Ele é fundamentalmente um lenhador, e é daquele tipo que sabe se virar na vida com apenas um canivete e um isqueiro (acho que fogo com pedras ele ainda nao sabe fazer). Pode escrever, mas lhe custa mais empunhar um lapis que um machado. Nao tem telefone, é claro.
Entao visitar o Marco é sempre uma surpresa. Ele pode ou estar na habitaçao social que lhe foi dada em Bussiere-Buffy (o que parece ser a opçao menos provavel), ou em sua caravana-charrete nos campos vizinhos ou... por ai. Nunca se sabe.
Estacionamos diante da casa e vimos sua namorada na janela. Ele apareceu em seguida e gritou:
- PEANUT!
Foi um caloroso reencontro. Ficamos comendo queijo e bebendo vinho até a noite. O Marco explicou: na França voce pode até ser pobre, mas sempre vai comer bem.
Ele colocou um som, em fita cassete. Manu Chao. O que ia bem com os artefatos rastafaris pendurados nas paredes. Quando terminamos de ouvir os dois lados, ele disse que ia por entao aquilo que mais gostava de ouvir, um som merveilleux.
Remexeu na sua coleçao de fitas, escolheu uma e colocou-a no aparelho. Apertou play e esperamos. Silencio com chiadinho e....
Pagode! Sim!, Marco, o lenhador frances, é fa de pagode!
Ele tem um irmao que, nao sei por que cargas d'agua, foi parar um dia no Brasil. Apaixonou-se por uma mulher, creio que no Nordeste. Dela absorveu o gosto musical. A certa altura seu visto acabou, e ele teve de deixar o pais. Prometeu voltar. Hoje esta na Nova Caledonia, construindo o barco (ele é marinheiro) com o qual saira com a indefectivel tarefa de recuperar o seu amor.
Embalada pelo ritmo, passei uma semana fazendo o que queria. Para começar, dormi muito. Ia para a cama quase que com a Peanut, com seus dez meses de idade, e acordava cedo, com ela, também. Dormia varias sestas por dia. Li guias de viagem, estudei Italiano, escrevi, desenhei, caminhei. Tudo o que adoro, mas que nao tive tanto tempo para fazer nos ultimos tres anos (louca vida levamos os arquitetos...). Como meu frances vai de inexistente a ruim, permiti-me participar das conversas so quando tinha vontade mesmo. Solidao com ruidinho de fundo, muitas vezes é meu estilo favorito.
Até porque o Marco tava muito reclamao.
Esbravejava contra o tirano prefeito da cidade, contra a falta de liberdade, contra a condiçao de marginalidade que lhes é imposta dia a dia.
Agora, imaginem voces. Ele mora em uma habitaçao social, um predinho de dois andares, dois apartamentos por andar. Ele ocupa um deles, em cima, e sua namorada outro, embaixo. Os outros dois estao vazios. Entao aquilo é quase uma mansao: o quintal todinho para eles, musica alta (da-le pagode!), portas abertas, agua quente e calefacao, tudo de graça. Ali faziamos fogueira, churrasco, comiamos ao ar livre, deitavamos na grama, etc etc. Até sua charrte estava estacionada ali. Além do que, ele passou a semana com a gente, coçando a barriga. Uma vez por dia, vez uma visita aas terras que lhe foram emprestadas, para alimentar seus cavalos e cabras. E, quando cansa da "cidade", pega sua caravaninha aa traçao animal e vai perder-se pelo bosque, ou passear pelo campo.
Haveria de madar-lhe a uma das tantas favelas que se espalham pelo mundo, para ele ver que tem a vida que muita, mas muita gente mesmo, pediu a Deus!
Mas, como diz um, "cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é". Ou, como diz o genio popular, "ema, ema, ema, cada um com seus problema".
Eu fiquei bastante impressionada com um aspecto das vilazinhas da regiao: nao havia viv'alma nas ruas. Nem no interior da Bélgica vi algo igual.
E nao era porque fosse fim de semana, nem o contrario. Fiquei um pouco preocupada com o Wilbert e a Theresa, e, especialmente, com a Peanut, indo morar la. Mas, segundo ela, isso é exatamente o que buscam. Ema, ema, ema.
Eu queria muito usar a internet para começar logo o blog. Eles me levaram de carro até a maior vila da regiao mas, chegando la, talvez houvesse, na biblioteca, mas ela estava fechada. o Marco disse entao que em Nouic, vilarejo a 5km de distancia de sua casa, eu encontraria, na prefeitura, uns computadores que poderia usar. La fui eu, caminhando.
A certa altura, cismei que tinha pego o caminho errado, porque a tal Nouic nao chegava nunca.
Precisava muito de pedir informaçao, mas para quem!? De sorte que seguia andando. La pelas tantas, avistei um agrupamento de casas. Subi a estradinha até elas e postei-me diante de uma casa, batendo palmas e gritando "bonjour!", mas ninguém vinha em meu socorro. Quando ja nao sabia mais o que fazer, vi, por entre uma casa e outra, a torre de uma igreja, ao longe. Onde ha fumaça, ha fogo, onde ha torre de igreja, ha de haver internet.
Andei e encontrei Nouic e seus computadores.
Foi assim que vivenciei na pele um aspecto da vida medieval. As torres eram marcos na paisagem, indicando onde estavam os centros urbanos. quanto mais alta a torre, mais aquecida a economia, pois mais gente passava por ali.
So nao me senti mais agradecida a Nouic e sua torre porque os computadores que encontrei ali nao tinham entrada USB para as fotos (se ao menos elas estivessem em disquete...) e o teclado frances nao convida muito a escrever...
Entao valeu a caminhada, valeu a paisagem, com suas arvores em flor e cabritinhos; mas o blog ficou para depois.
Ready or not, here we go!

Um passeio pelas Ardenes, onde acampamos.
O quintal da habitaçao social, onde faziamos fotossintese.

As vilas fantasmas da Limousin
(onde, incrivelmente, mora gente!).
Em caminhada rumo aa Nouic.
A torre de Nouic, que nao me deixou desistir de minha busca pelos computadores.









Muito divertida a história! Me identifiquei com o Marco, só que ao contrário.
ResponderExcluirQueremos fotos!!! Que país periférico é esse que não tem computadores com entrada USB?
Bjos
Gaubi
Minha afilhada querida!
ResponderExcluirQue bom recuperar uma afilhada por um blog. Participei tanto do seu crescimento, fomos tao proximos, te conhecia tanto. Passaram se os anos e BB roubou voce do meu convivio. Nao acompanhei seu crescimento pos BH. Agora te vejo com um linguajar todo propio e fluido, leve e romantico. Vou seguir este blog mas te quero por perto para desfrutar pessoalmente estes seu ^causo^. Beijos do padrinho que te ama. Titonho.